Clínica e Centro de Estudos Interdisciplinares

Podemos afirmar que vivemos em tempos de consumo? Essa tem sido uma afirmação comum em discussões no âmbito educacional. Acredito que o tema é amplo e nos abre um enorme campo para debate, entretanto, longe de trazer uma solução para essa questão, proponho uma reflexão sobre alguns pontos relacionados à educação, formação e constituição psíquica das crianças.

Quais podem ser os efeitos psíquicos de crescer em um mundo em que a relação com o consumo está, muitas vezes, marcadas pelo excesso? Em que lugar fica o que não se pode comprar? Se a infância encontra-se atravessada pelo universo próprio do individualismo e do consumo, o que podemos fazer para que as crianças não permaneçam aprisionadas pelo imperativo do ter, do objeto como única promessa de felicidade plena?

Penso que, frente a essa forma de discurso, o ter ou não ter passou a regular as possibilidades de “ser feliz”, e o ato de consumir aparece como saída na busca de uma suposta satisfação. Suposta, acredito, pois penso que para os seres humanos, enquanto sujeitos de desejo, a satisfação completa é impossível – queremos sempre mais. As lojas de brinquedos, os shoppings e as propagandas possuem uma estrutura que fascina a todos e, não diferente, as crianças. Além disso, se o meu coleguinha tem eu também quero, senão, serei inferior a ele. Será? Estamos, em nossa necessidade humana de pertencer a grupos, consumindo em busca da inserção social e assim nos aproximando ou, pelo contrário, nos tornando autômatos, máquinas de produção e de consumo em série sem desejo próprio?

O video “Criança - A Alma do Negócio” mostra como a criança se tornou um negócio lucrativo, quando a indústria descobriu que é mais fácil vender para ela do que para o adulto. As propagandas vêm estimulando o consumo ao se dirigirem diretamente às crianças, em um jogo desigual, no qual os anunciantes ficam com o lucro e as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Espero que essa indicação possibilite uma reflexão sobre a importância da infância para todos os seres humanos, sobre o que estamos fazendo, o que podemos fazer e os impasses que nos impõe a contemporaneidade.

 

Documentário - Criança: a alma do negócio
2008

 

Direção: Estela Renner
Produção: Marcos Nisti - Maria Farinha Produções
Roteiro: Estela Renner e Renata Ursaia

Disponível para download legal, no site do Instituto Alana

http://alana.org.br/